terça-feira, 1 de outubro de 2013
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
EU NA HOLANDA
Saí do Porto em 26 de Maio de 2008. Numa manhã em que chovia copiosamente. Vieram 2 amigos comigo, tentar a melhoria das condições de vida, na Holanda. Eu tinha quem me recebesse e onde ficar. Eles, como vinham comigo, tb tiveram. Vim com 100 euros no bolso.
A razão da minha vinda foi a extrema desilusão com o meu país e a falta de perspectivas futuras. Estava desempregada a receber o fundo de desemprego, tinha 52 anos, uma relação afetiva muito desgastada pelos condicionalismos da falta de dinheiro e o facto de acreditar que a minha amiga, q já cá vivia há 3 anos, teria razão quando afirmava que a Holanda "era a minha cara".
Afinal ela conhecia-me bem: era uma longa amizade, que nos unia há dezenas de anos e um percurso em comum durante algum tempo.
Desfiz-me de tudo o q tinha em Portugal. Não tencionava regressar nunca. Voltaria apenas se tivesse condições para trazer para a Holanda as pessoas de quem gostava.
Cheguei 2 dias depois a Rotterdam. De camionete dado q as sacas q trazia (com a minha vida toda lá dentro - como se isso fosse possível...) pesavam demasiado. O que trazia: alguma roupa, alguns livros e alguma da minha música. Os meus cd. O resto dei, distribuí por quem ficou. Coisas mais íntimas deixei com o meu filho, em Bragança (onde ele vive).
A razão da minha vinda foi a extrema desilusão com o meu país e a falta de perspectivas futuras. Estava desempregada a receber o fundo de desemprego, tinha 52 anos, uma relação afetiva muito desgastada pelos condicionalismos da falta de dinheiro e o facto de acreditar que a minha amiga, q já cá vivia há 3 anos, teria razão quando afirmava que a Holanda "era a minha cara".
Afinal ela conhecia-me bem: era uma longa amizade, que nos unia há dezenas de anos e um percurso em comum durante algum tempo.
Desfiz-me de tudo o q tinha em Portugal. Não tencionava regressar nunca. Voltaria apenas se tivesse condições para trazer para a Holanda as pessoas de quem gostava.
Cheguei 2 dias depois a Rotterdam. De camionete dado q as sacas q trazia (com a minha vida toda lá dentro - como se isso fosse possível...) pesavam demasiado. O que trazia: alguma roupa, alguns livros e alguma da minha música. Os meus cd. O resto dei, distribuí por quem ficou. Coisas mais íntimas deixei com o meu filho, em Bragança (onde ele vive).
A minha amiga recebeu-me bem, como era de esperar. Mas aos meus amigos, nem por isso... de facto não pareciam ser vem vindos para ela. Incomodou-me esse facto.
No meu caso, nada tenho a queixar-me para além da forma de vida q ela levava e que não era de todo a que queria para mim. Mas isso eu já sabia. A casa dela era a minha plataforma inicial para arranjar trabalho e um local só para mim.
Tive muita sorte. A 1ª empresa a que me fui oferecer para trabalhar parece q estava à minha espera. Quando viram q falava bem inglês e q me dispunha a trabalhar aos fins de semana, deram-me logo emprego.
Comecei a trabalhar a 4 de Junho de 2008, num Hotel de Rotterdam. Limpezas, claro.
Tinha colegas de trabalho de várias nacionalidades, incluindo portuguesa. Foi fácil a adaptação. Difícil era o trabalho para os meus 52 anos e para os problemas de saúde q já trazia de Portugal. Mas aguentava firme. As colegas eram todas jovens e percebiam a minha dificuldade em várias tarefas. Não tenho razão de queixa de nenhuma. Vidas e objetivos de vida muito diferentes dos meus, mas isso não impedia q me desse sempre bem com todas.
Trabalhava então em 2 hoteis no centro de Rotterdam. Qdo havia mais trabalho num q no outro, a empresa contratante distribuía-nos. São perto um do outro mas com donos diferentes.
O dono de um é holandês. Era antipático, arrogante e grosseiro. Tive algumas falas menos agradáveis com ele. Cheguei a dizer na empresa contratante q não queria trabalhar lá mais.
O outro hotel foi entretanto vendido a chineses. No início de 2009 consegui q o patrão chinês nos fizesse um contrato direto. Trazia-nos muito mais segurança e regalias. Para ele tb era bom porque ficava-lhe mais barato. O manager (tb chinês) conversava imenso comigo. Até me fazia confidências. Não percebia como é q eu trabalhava em limpezas...
Em Portugal fui empregada de escritório, vendedora de seguros, de publicidade, gerente de um centro de explicações, dona de um café, gerente de um bar/restaurante e empregada de mesa. Assim, por esta ordem.
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No meu caso, nada tenho a queixar-me para além da forma de vida q ela levava e que não era de todo a que queria para mim. Mas isso eu já sabia. A casa dela era a minha plataforma inicial para arranjar trabalho e um local só para mim.
Tive muita sorte. A 1ª empresa a que me fui oferecer para trabalhar parece q estava à minha espera. Quando viram q falava bem inglês e q me dispunha a trabalhar aos fins de semana, deram-me logo emprego.
Comecei a trabalhar a 4 de Junho de 2008, num Hotel de Rotterdam. Limpezas, claro.
Tinha colegas de trabalho de várias nacionalidades, incluindo portuguesa. Foi fácil a adaptação. Difícil era o trabalho para os meus 52 anos e para os problemas de saúde q já trazia de Portugal. Mas aguentava firme. As colegas eram todas jovens e percebiam a minha dificuldade em várias tarefas. Não tenho razão de queixa de nenhuma. Vidas e objetivos de vida muito diferentes dos meus, mas isso não impedia q me desse sempre bem com todas.
Trabalhava então em 2 hoteis no centro de Rotterdam. Qdo havia mais trabalho num q no outro, a empresa contratante distribuía-nos. São perto um do outro mas com donos diferentes.
O dono de um é holandês. Era antipático, arrogante e grosseiro. Tive algumas falas menos agradáveis com ele. Cheguei a dizer na empresa contratante q não queria trabalhar lá mais.
O outro hotel foi entretanto vendido a chineses. No início de 2009 consegui q o patrão chinês nos fizesse um contrato direto. Trazia-nos muito mais segurança e regalias. Para ele tb era bom porque ficava-lhe mais barato. O manager (tb chinês) conversava imenso comigo. Até me fazia confidências. Não percebia como é q eu trabalhava em limpezas...
Em Portugal fui empregada de escritório, vendedora de seguros, de publicidade, gerente de um centro de explicações, dona de um café, gerente de um bar/restaurante e empregada de mesa. Assim, por esta ordem.
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No final de Outubro de 2008 voltei a Portugal por uns 15 dias. Com a ideia de dizer ao meu companheiro para vir.
Já tinha saído de casa da minha amiga e alugado um quarto só para mim. Andava satisfeita. Gostava imenso de viver aqui e este era de facto o país onde queria ficar para sempre.
A única dificuldade era a língua. Mas só para coisas oficiais. No Hotel toda a gente falava inglês. Nas lojas tb. Sentia-me feliz e cheia de força.
"Ninguém volta ao que acabou", diz o poeta. E tem razão. Eu voltei. Para mim ainda não tinha acabado... tive uma imensa e profunda desilusão. Para ele já tinha acabado. Recebeu-me bem, como se recebe uma pessoa q vem de visita. Já não pertencia à vida dele e muito menos ao futuro.
Compreendi e desliguei dessa história de um grande amor na minha vida. Durou quase 4 anos. "Foi bonita a festa, pá....". Enterrei essa Manela quando o avião levantou voo para o meu regresso à Holanda. Definitivamente rompi com Portugal.
Havia o meu filho que queria trazer para aqui. Criei condições para isso. Consegui (com muita sorte) uma casa onde morar sozinha. Aluguei-a, disse ao meu filho para vir. Eu tinha trabalho, casa e dinheiro para ambos vivermos bem. Ele havia de arranjar trabalho e fazer cá a vida dele. Ele veio em Fevereiro de 2009, teve 2 meses sem arranjar trabalho. Por fim arranjou (embora precário) mas tinha imensas saudades da namorada. Sentia-o triste e infeliz. Ele punha sempre defeitos a tudo. Disse-lhe q fizesse a escolha dele. Fez. Regressou a Portugal em Agosto. Eu tinha arranjado duas gatinhas manas recém nascidas. Perfilhei-as. Afinal eu amo ser mãe. Gosto de ter de quem cuidar. Gosto de proporcionar felicidade e alegria a quem está comigo. Elas são felizes comigo. Precisam de mim e eu delas.
Já tinha saído de casa da minha amiga e alugado um quarto só para mim. Andava satisfeita. Gostava imenso de viver aqui e este era de facto o país onde queria ficar para sempre.
A única dificuldade era a língua. Mas só para coisas oficiais. No Hotel toda a gente falava inglês. Nas lojas tb. Sentia-me feliz e cheia de força.
"Ninguém volta ao que acabou", diz o poeta. E tem razão. Eu voltei. Para mim ainda não tinha acabado... tive uma imensa e profunda desilusão. Para ele já tinha acabado. Recebeu-me bem, como se recebe uma pessoa q vem de visita. Já não pertencia à vida dele e muito menos ao futuro.
Compreendi e desliguei dessa história de um grande amor na minha vida. Durou quase 4 anos. "Foi bonita a festa, pá....". Enterrei essa Manela quando o avião levantou voo para o meu regresso à Holanda. Definitivamente rompi com Portugal.
Havia o meu filho que queria trazer para aqui. Criei condições para isso. Consegui (com muita sorte) uma casa onde morar sozinha. Aluguei-a, disse ao meu filho para vir. Eu tinha trabalho, casa e dinheiro para ambos vivermos bem. Ele havia de arranjar trabalho e fazer cá a vida dele. Ele veio em Fevereiro de 2009, teve 2 meses sem arranjar trabalho. Por fim arranjou (embora precário) mas tinha imensas saudades da namorada. Sentia-o triste e infeliz. Ele punha sempre defeitos a tudo. Disse-lhe q fizesse a escolha dele. Fez. Regressou a Portugal em Agosto. Eu tinha arranjado duas gatinhas manas recém nascidas. Perfilhei-as. Afinal eu amo ser mãe. Gosto de ter de quem cuidar. Gosto de proporcionar felicidade e alegria a quem está comigo. Elas são felizes comigo. Precisam de mim e eu delas.
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Como era de prever, com tanto trabalho e tão pesado para mim, comecei a ter imensos problemas de saúde. Dores nas costas e crises de ciática. Fiquei em pânico. Senti-me perdida e sem futuro. Que poderia eu fazer?! Entrei em depressão. Profunda. Chorava muito. Fiquei com "baixa". Passei a ser tratada em psiquiatria e psicologia. Mas, estava na Holanda. Aqui não desprezam quem está mal. Tive excelentes médicos. Excelente tratamento. Muitas ajudas de várias instituições e pessoas individuais. Holandeses. Todos me apoiaram e me fizeram sair desse estado.
O psicólogo sobretudo. Após um ano de tratamento - 1º semanalmente, depois quinzenal e por fim mensal, consegui dar-lhe "alta" e ficar BOA. Sim. Completamente curada. Curada de toda uma vida de sofrimento, desilusões e dificuldades monetárias. Nunca vivi bem. Sou filha de gente pobre e trabalhadora e criei um filho desde os 2 anos sózinha e com bastantes dificuldades.
Um passado que ficou definitivamente resolvido com a ajuda do psicólogo.
Aprendi a valorizar tudo o que tenho. A valorizar-me. A ser feliz e a apreciar as pequenas conquistas da minha vida. A olhar o céu. A viver de acordo com a natureza. A ter paz.
O psicólogo sobretudo. Após um ano de tratamento - 1º semanalmente, depois quinzenal e por fim mensal, consegui dar-lhe "alta" e ficar BOA. Sim. Completamente curada. Curada de toda uma vida de sofrimento, desilusões e dificuldades monetárias. Nunca vivi bem. Sou filha de gente pobre e trabalhadora e criei um filho desde os 2 anos sózinha e com bastantes dificuldades.
Um passado que ficou definitivamente resolvido com a ajuda do psicólogo.
Aprendi a valorizar tudo o que tenho. A valorizar-me. A ser feliz e a apreciar as pequenas conquistas da minha vida. A olhar o céu. A viver de acordo com a natureza. A ter paz.
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Apesar de doente nunca deixei de trabalhar. Ofereci-me sempre para voluntariados. Primeiro só tinha um, uma vez por semana. Junto de pessoas com problemas de exclusão social. Drogados e excluídos. Sirvo-os numa instituição q os acolhe. É muito gratificante embora triste........................................ Chamam-me "mamã"....
Mas, era só um dia, queria mais. Fui oferecer-me para outro. Agora estou em ambos. Tenho todos os dias da semana ocupados. Algumas horas, não muitas. Já vou fazer 58 anos....
Gostam de mim. Gosto deles. Gosto do que faço. Gosto dos colegas. Holandeses e de outros países.
Entretanto consegui outra casa, onde moro agora. Bonita. Pequenina. Num 8º andar. Posso olhar o céu e olho. Posso viver em paz com as minhas gatinhas e vivo.
Tenho um subsídio concedido pelo estado para pessoas desempregadas. Não é muito nem é pouco. Consigo viver. Sem luxos mas com qualidade de vida. E sobretudo em paz. Não preciso de muito. Levo uma vida muito calma e recatada. Gosto da minha vida. Passeio muito sozinha. Gosto de andar sozinha. Quando tenho companhia tb é bom. Ando com um rollator. (Fui operada há um ano ao joelho)
Quando posso faço umas mini-férias. Em casa de amigos aqui, ou umas fugidas a outros países em viagens promocionais.
.....................................................................................................
A Holanda é mesmo a minha cara. Gosto da forma de ser dos holandeses. Não fazem perguntas difíceis. Aceitam as diversidades dos outros. São politicamente corretos. Não se metem na vida dos outros. São educados. São solidários se precisares e pedires. São compreensivos. Nunca me senti discriminada nem hostilizada. Só quando digo q sou portuguesa os surpreendo. Não tenho aspeto disso nem o estilo de vida português. Em Portugal tb não tinha. E hostilizavam-me.
Há uma miscelânea de gentes e de culturas neste país que me agrada. Gente de todo o mundo. Modos de ser e estar completamente diferentes e q coabitam e interagem. A Holanda, como o resto do mundo, está em mudança... Não creio q vá para melhor, pelo menos nos próximos anos. Há imensas coisas para corrigir tb aqui. É inevitável.
Não penso no futuro. O futuro é amanhã. É o que vou fazer amanhã. Sou uma inconsciente. Não tenho dinheiro junto, não tenho projetos de vida, não tenho desejos nem frustrações. Quero viver esta minha paz e conseguir transmiti-la a quem quiser. Quero continuar aqui na Holanda. Não tenho país. Este é o meu, agora. Porque aqui me sinto bem.
Não tenho nada a ver com a maioria dos portugueses que vivem na Holanda. Não temos as mesmas necessidades nem os mesmos desejos. Nada tenho contra eles e contra o que querem. Mas não é nada comigo. O que me une aos outros é o desejo de paz, alegria e bem estar. Pontualmente. E isto é independente de nações. É apenas humano. Humanismo e liberdade. Valores universais de justiça e paz.
Mas, era só um dia, queria mais. Fui oferecer-me para outro. Agora estou em ambos. Tenho todos os dias da semana ocupados. Algumas horas, não muitas. Já vou fazer 58 anos....
Gostam de mim. Gosto deles. Gosto do que faço. Gosto dos colegas. Holandeses e de outros países.
Entretanto consegui outra casa, onde moro agora. Bonita. Pequenina. Num 8º andar. Posso olhar o céu e olho. Posso viver em paz com as minhas gatinhas e vivo.
Tenho um subsídio concedido pelo estado para pessoas desempregadas. Não é muito nem é pouco. Consigo viver. Sem luxos mas com qualidade de vida. E sobretudo em paz. Não preciso de muito. Levo uma vida muito calma e recatada. Gosto da minha vida. Passeio muito sozinha. Gosto de andar sozinha. Quando tenho companhia tb é bom. Ando com um rollator. (Fui operada há um ano ao joelho)
Quando posso faço umas mini-férias. Em casa de amigos aqui, ou umas fugidas a outros países em viagens promocionais.
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A Holanda é mesmo a minha cara. Gosto da forma de ser dos holandeses. Não fazem perguntas difíceis. Aceitam as diversidades dos outros. São politicamente corretos. Não se metem na vida dos outros. São educados. São solidários se precisares e pedires. São compreensivos. Nunca me senti discriminada nem hostilizada. Só quando digo q sou portuguesa os surpreendo. Não tenho aspeto disso nem o estilo de vida português. Em Portugal tb não tinha. E hostilizavam-me.
Há uma miscelânea de gentes e de culturas neste país que me agrada. Gente de todo o mundo. Modos de ser e estar completamente diferentes e q coabitam e interagem. A Holanda, como o resto do mundo, está em mudança... Não creio q vá para melhor, pelo menos nos próximos anos. Há imensas coisas para corrigir tb aqui. É inevitável.
Não penso no futuro. O futuro é amanhã. É o que vou fazer amanhã. Sou uma inconsciente. Não tenho dinheiro junto, não tenho projetos de vida, não tenho desejos nem frustrações. Quero viver esta minha paz e conseguir transmiti-la a quem quiser. Quero continuar aqui na Holanda. Não tenho país. Este é o meu, agora. Porque aqui me sinto bem.
Não tenho nada a ver com a maioria dos portugueses que vivem na Holanda. Não temos as mesmas necessidades nem os mesmos desejos. Nada tenho contra eles e contra o que querem. Mas não é nada comigo. O que me une aos outros é o desejo de paz, alegria e bem estar. Pontualmente. E isto é independente de nações. É apenas humano. Humanismo e liberdade. Valores universais de justiça e paz.
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
GIETHOORN
CONSIDERADA A VENEZA DA HOLANDA.
É BELÍSSIMA. FOI UM PASSEIO DE SONHO APÓS UM FIM DE SEMANA MUITO BOM EM CASA DE AMIGOS (EM HENGELO)
sexta-feira, 28 de junho de 2013
ESTOU CANSADA!!!!!!!!!!!!!!!
UHF - Vernáculo (para um homem comum)
Estou cansado, pá
Cansado e parado por dentro
Sem vontade de escolher um rumo
Sem vontade de fugir
Sem vontade de ficar
Parei por dentro de mim
Olho à volta e desconheço o sítio
As pessoas, a fala, os movimentos
A tristeza perfilada por horários
Este odor miserável que nos envolve
Como se nada acontecesse
E tudo corresse nos eixos.
Estou cansado destes filhos da puta que vejo passar
Idiotas convencidos
Que um dia um voto lançou pela TV
E se acham a desempenhar uma tarefa magnífica.
Com requinte de filhos da puta
Sabem justificar a corrupção
O deserto das ideias
Os projectos avulso para coisa nenhuma
A sua gentil reforma e as regalias
Esses idiotas que se sentam frente-a-frente no ecrã
À hora do jantar para vomitar
O escabeche de um bolo de palavras sem sentido
Filhos da puta porque se eternizam
Se levam a sério
E nos esmigalham o crânio com as suas banalidades:
O sôtor, vai-me desculpar
O que eu quero é mandá-los cagar
Para um campo de refugiados qualquer
Vê-los de Marlboro entre os dedos a passear o esqueleto
Entre os esqueletos
Naquela mistura de cheiros e cólicas que sufoca
Apenas e só -- sufoca.
Estou cansado
Cansado da rotina
Desta mentira que é a vida
Servida respeitosamente
Com ferrete
Obediente
Obediente.
Estou cansado de viver neste mesmo pequeno país que devoram
Escudados pelas desculpas mais miseráveis
Este charco bafiento onde eles pastam
Gordos que engordam
Ricos que amealham sem parar
Idiotas que gritam
Paneleiros que se agitam de dedo no ar
Filhos da puta a dar a dar
Enquanto dá a teta da vaca do Estado
Nada sabem de história
Nada sabem porque nada lêem além
Da primeira página da Bola
O Notícias a correr
E o Expresso, porque sim!
Nada sabem das ideias do homem
Da democracia
Atenas e Roma
Os Tribunos e as portas abertas
E a ética e o diálogo que inventaram o governo do povo pelo povo
Apenas guardam o circo e amansam as feras
Dão de comer à família até à diarreia
Aceitam a absolvição
E lavam as manápulas na água benta da convivência sã
Desde que todos se sustentem na sustentação do sistema
Contratualizem (oh neologismo) o gado miúdo
Enfatizem o discurso da culpa alheia
Pela esquizofrenia politicamente correcta:
Quando gritam, até parece que se levam a sério
Mas ao fundo, na sacristia de São Bento
O guião escrito é seguido pelas sombras vigentes.
Estou cansado
Cansado da rotina
Desta mentira que é a vida
Servida respeitosamente
Com ferrete
Obediente
Obediente.
Estou farto de abrir a porta de casa e nada estoirar como na televisão
Não era lá longe, era aqui mesmo
Barricadas, armas, pedradas, convulsão
Nada, não há nada
Os borregos, as ovelhas e os cabrões seguem no carreiro
Cmo se nada lhes tocasse -- e não toca
A não ser quando o cinto aperta
Mas em vez da guerra
Fazem contas para manter a fachada:
Ah carneirada, vossos mandantes conhecem-vos pela coragem e pela devoção na gritaria do futebol a três cores
Pelas vitórias morais de quem voa baixinho
E assume discursos inflamados sem tutano.
Estou cansado
Cansado da rotina
Desta mentira que é a vida
Servida respeitosamente
Com ferrete
Obediente
Obediente.
Estou cansado, pá
Sem arte, sem génio, cansado:
Aqui presente está a ementa e o somatório erróneo do desempenho de uma nação
Um abismo prometido
Camuflado por discursos panfletários:
Morte aos velhos!
Morte aos fracos!
Morte a quem exija decência na causa pública!
Morte a quem lhes chama filhos da puta!
- E essa mãe já morreu de sífilis à porta de um hospital.
Mataram os sonhos
Prenderam o luxo das ideias livres
Empanturraram a juventude de teclados para a felicidade
E as famílias de consumo & consumo
Até ao prometido AVC
Que resolve todas as prestações:
Quem casa com um banco vive divinamente feliz
E tem assistência no divórcio a uma taxa moderada pela putibor.
Estou cansado, pá
Da surdez e da surdina
Desta alegria por porra nenhuma
Medida pelo sorriso de vitória do idiota do lado
Quando te entala na fila e passa à frente
É a glória única de muita gente
Uma vida inteira...
Eleitos, cuidem da oratória...
(António Manuel Ribeiro)
* Baseado no poema "Vernáculo" do livro "O Momento a Seguir", edição Sete Caminhos (2006) -- contém expressões do português vernáculo.
Tema incluído no álbum "A Minha Geração" (2013) - editado em 24/06/2013.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
4º ANIVERSÁRIO DAS GATINHAS
AS KIT-KAT FAZEM HOJE 4 ANOS.
Os amantes febris e os sábios solitários
Amam de modo igual, na idade da razão,
Os doces e orgulhosos gatos da mansão,
Que como eles têm frio e cismam sedentários.
Amigos da volúpia e devotos da ciência,
Buscam eles o horror da treva e dos mistérios;
Tomara-os Érebo por seus corcéis funéreos,
Se a submissão pudera opor-lhes à insolência.
Sonhando eles assumem a nobre atitude
Da esfinge que no além se funde à infinitude,
Como ao sabor de um sonho que jamais termina;
Os rins em mágicas fagulhas se distendem,
E partículas de ouro, como areia fina,
Suas graves pupilas vagamente acendem.
CHARLES BAUDELAIRE
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